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Cinco casos de violência contra a mulher foram registrados por dia em 2020, indica pesquisa em cinco


Boletim da Rede de Observatórios da Segurança apontou aumento da divulgação de ocorrêcias durante pandemia; levantamento foi realizado nos estados da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio e São Paulo

Cíntia Cruz e Raphaela Ramos 04/03/2021 - 06:00


Fonte JORNAL O GLOBO, link da matéria abaixo:

https://oglobo.globo.com/sociedade/celina/cinco-casos-de-violencia-contra-mulher-foram-registrados-por-dia-em-2020-indica-pesquisa-em-cinco-estados-24908444


RIO — Um levantamento inédito feito pelo boletim "A dor e a luta: números do feminicídio", lançado nesta quinta-feira, mostra que foram registrados, em média, cinco casos por dia de violência contra mulheres nos estados da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, em 2020. Ao todo, o estudo, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, monitorou 1.823 casos. Feminicídio: Imagens mostram jovem sendo atacada pelo ex no Espírito Santo A metodologia utilizada para a pesquisa foram reportagens de veículos de imprensa, inclusive não profissionais. O Rio de Janeiro registrou 318 casos de feminicídio e de violência contra a mulher, sendo o segundo, entre os cinco estados, onde houve mais agressões a mulheres, ficando atrás apenas de São Paulo, apontou o boletim. Para Bruna Sotero, pesquisadora do Rio de Janeiro e articuladora nacional da Rede de Observatórios, os índices elevados apontados no levantamento se devem a maior divulgação de casos na imprensa: No STF: Toffoli declara inconstitucional tese de legítima defesa da honra para justificar feminicídio — Assim que começou a pandemia, foi nítida a diminuição das notícias sobre ações de policiamento e o aumento das relacionadas à violência contra a mulher. Com a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamenta) das Favelas, começaram a passar mais na imprensa notícias de mulheres sofrendo com os mais variados tipos de violência do que operações policiais. Histórias como a da advogada Renata Neves, de 32 anos, constam no boletim. No caso dela, não houve final trágico. Com seis meses de relacionamento, Neves viu a face mais cruel do então namorado. Quando avisou que iria terminar a relação, ele provocou um acidente no carro onde estavam. Neves quebrou um dos pés no acidente e teve de usar cadeira de rodas por um mês. As ameaças se estenderam por meses. Celina: 'Mulheres continuarão sendo assassinadas se não trabalharmos a prevenção e a educação', diz desembargador Wagner Cinelli — Ele nunca foi agressivo. Era o namorado perfeito. Até o dia que eu disse que ia terminar. Voltávamos de uma festa e eu dirigia o carro. Começamos uma briga por ciúmes dele. Quando eu disse que não queria mais, ele virou o volante e capotamos na (rodovia) Rio-Santos. Ele ficou revoltado e disse que eu, se não fosse dele, não seria de mais ninguém. Assim que me restabeleci, registrei ocorrência na delegacia. Foi tentativa de feminicídio, mas o promotor e o juiz entenderam por lesão — contou a advogada. O ex-namorado foi condenado por lesão corporal grave com base na Lei Maria da Penha, ano passado, embora o caso tenha ocorrido em 2016. No universo da pesquisa, São Paulo apresenta os piores índices. Do total de crimes contra mulheres monitorados pela Rede em 2020, 40% aconteceram no estado, que também teve 200 casos de feminicídio, 384 de tentativa e 118 de estupro. Apesar de não utilizar dados dos respectivos governos, a pesquisa, em três estados, mostra números maiores do que os oficiais. Em São Paulo, são 169, segundo estatísticas oficiais, ante 200 registradas pela rede de observatórios. Em Pernambuco, os dados estaduais mostram 75 feminicídios e o estudo aponta 82. No Ceará, são 27 registros do crime, segundo informações do governo, e 47, de acordo com levantamento divulgado esta quinta-feira. No Rio: Filha de vítima de feminicídio quer ser delegada para proteger outras mulheres Entre os tipos de violência monitorados pela rede ano passado, feminicídios e violência contra mulher ocupam o terceiro lugar entre os registros. Em 58% dos casos de feminicídios e 66% dos de agressão, os criminosos eram companheiros da vítima, apontam a pesquisa. — Ele ficou me perseguindo por muito tempo, querendo voltar. Já tinha antecedentes na delegacia de três ou quatro mulheres que deixaram para lá e foi arquivado. Ele falou que poderia fazer muito pior e que não ia dar em nada, mas eu fui até o fim — recorda Neves. Dados sobre mulheres negras A dificuldade para identificar o número de mulheres negras vítimas fatais de violência é ressaltada na pesquisa. Na Bahia, do total de 306 casos de violência contra a mulher, a cor/raça foi identificada somente em 26. Trata-se, segundo Sotero, de uma consequência do racismo: — Se a gente consegue ter acesso a mais informações, como idade e cor, consegue traçar o perfil da vítima e ajudar na formulação de políticas públicas mais eficazes. Na maioria das vezes, a matéria não menciona a cor da vítima. O mesmo ocorre entre os dados oficiais. Isso dificulta nosso trabalho. Quando a gente não tem esse dado, deixa de falar quem é a parcela da população que está morrendo. Quarentena: Feminicídios crescem 16% no período de maior isolamento social no Brasil A pesquisa aponta também que, na Bahia, são 111 casos de homicídios de mulheres contra 70 feminicídios, o que pode denotar, segundo o levantamento, uma dificuldade para classificar o homicídio de uma mulher como feminicídio. O isolamento social foi um fator que agravou os índices de feminicídio no ano passado. Na Bahia, logo após ser decretada a quarentena, os casos de feminicídio aumentaram e ocorreu um pico de 11 casos no mês de maio. No ano passado, a plataforma EVA, do Instituto Igarapé, já havia identificado que, entre março e junho de 2020, houve um aumento de 16% no número de feminicídios no Brasil, em comparação a igual período do ano anterior. — Se pudesse elencar dois fatos nessa dinâmica de violência contra a mulher, seriam o índice de desemprego e a pandemia. Se pensarmos num contexto de classe, as mulheres periféricas são as que menos acessam esses canais de denúncia — avalia Sotero.

A Rede de Observatórios monitorou 21 casos de mortes de pessoas trans em 2020. Foram 13 no estado do Ceará, sete registros em São Paulo e um em Pernambuco. Estes números estão presentes nos casos de violência LGBTQI+. O Rio de Janeiro e a Bahia não tiveram registros na imprensa, segundo o boletim. No Ceará, estado que mais matou transexuais, quatro casos chegaram a acontecer no período de um mês. Esse é o mesmo estado onde a travesti Dandara foi executada com requintes de crueldade há quatro anos. A Rede de Observatórios da Segurança monitora números da violência, desde 2018, no Rio de Janeiro, e de junho de 2019, nos cinco estados que formam a Rede. A Rede é um projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), com apoio da Fundação Ford, formada por cinco observatórios locais, mantidos em parceria com as organizações Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD), Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC). O objetivo é monitorar e difundir informações sobre segurança pública, violência e direitos humanos.


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